A Biografia de Ian Curtis – Líder do Joy Division

Por Marcella Matos

Toda figura do rock possui uma marca permanente ou, melhor dizendo, uma espécie de ‘aura mitológica, cuja história de vida, muitas vezes conturbada, ajuda na criação da ‘persona mito’; Os acontecimentos da vida de Ian Cutis, associado a sua personalidade reservada, aspecto soturno, estilo caladão, pensativo e observador levam as pessoas a especularem e interpretarem suas composições e performance no palco como reflexo de seu espírito inquieto. Com certeza, uma das personalidades mais emblemáticas da história do rock: Se apegou à morte como porta à liberdade, um sopro de alívio, um ato de desespero…

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Ian Curtis pode ser considerado um “frontman” fora do padrão; não se encaixa no rótulo de “rockstar”, não se moldou às circunstâncias, por assim dizer, pois tinha um modo de vida bem diferente dos astros de rock, isto é, um cotidiano sem grandes excessos. O vocalista ia contra a corrente, na verdade, visto que era um tanto introspectivo e desajeitado até… Estava totalmente fora da caixinha do  ‘previsível’.

 

Curtis casou-se cedo com Deborah, seu primeiro amor, com quem tinha um grande carinho e afeição. Não tardou, as aflições e inquietações, que são inerentes do ser humano, (formando uma das ligas da tríade: alma, corpo e mente) penetraram fundo no âmago do jovem inglês… Um dos agravantes para a interminável sensação de culpa que acompanhava Ian foi o seu relacionamento extraconjugal com a jornalista belga Annik Honoré. Ian, imergido nessa paixão avassaladora, nutria uma grande angústia dentro de si; isto refletia no tom sombrio de suas letras. Seus problemas eram agravados com as constantes discussões que matinha com sua esposa; Ele estava no olho do furacão e não tinha força e equilíbrio emocional para lidar om todas aquelas mudanças que resultaria, mais tarde, em um divórcio difícil e conturbado.

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O que levou o jovem tímido e introvertido a formar uma banda foi a irresistível sensação de ‘sentir algo’, ter algum sentido na vida,  alguma coisa que lhe movesse… Ele sentiu tudo isto ao assistir um show dos Sex Pistols; ficou completamente encantado com aquele universo e com a troca de energia e potência  (que emergia do palco) entre o público e a banda. Ian queria fazer parte daquilo…

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Dentre os agravantes que acalentava a sensação de desespero e do ‘não controle’ por parte do músico era a  epilepsia; doença neurológica que se manifesta em crises de perda da consciência, acompanhadas de convulsões (surgem em intervalos irregulares de tempo). Ian sofreu inúmeras crises no palco. Ele desenvolveu, acredita-se que em consequência das crises, um jeito diferente de apresentar em público: sempre se movimentando nos palcos; principalmente os braços. Renato Russo, inclusive, era um grande fã do Joy Division: a inspiração é notável; tanto musicalmente como no timbre da voz e na postura de palco. Os próprios integrantes do Joy Division nunca sabiam diferenciar a dança/crise tamanha era a “semelhança” entre ambas. 

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Além do Sex Pistols, Ian Curtis compartilha outras preferências musicais, como: Iggy Pop, The Doors, Lou Reed e, principalmente, David Bowie. O cantor inglês figura entre as influências mais significativas de sua vida.

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Ian Curtis lutou contra seus demônios; não suportando a dor chegou ao seu limite. Aos 23 anos, em um ato de desespero, tirou sua própria vida: se enforcou na cozinha de sua casa, numa espécie de suporte que sustentava um varal de roupas. Ele sofria com os ataques de sua doença, cada vez mais frequentes, o que agravava ainda mais sua mente perturbada. As angústias lhe atormentavam diariamente ao mesmo tempo que eram intensificadas com os conflitos de sua vida pessoal. Todo o peso do mundo se tornou insustentável, um fardo difícil de suportar… Ian era pai de uma criança de um ano de idade.

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O joy Division gravara dois discos ao todo. Muitos fãs dizem que Closer (1980) era um indício (meio profético) da morte de Curtis: A capa, que mostra a foto de uma lápide de cemitério, foi escolhida antes da morte de Ian Curtis; devido as circunstâncias da vida pessoal de Ian na época, o álbum acabou refletindo o momento conturbado do músico; mas como o disco foi lançado após o suicídio do músico, todos os elementos característicos do Joy Division como a: introspecção das letras, melodia e atmosfera densa chamou deveras atenção tamanha a coincidência dos acontecimentos.

O que seriam dos mitos sem o suporte da narrativas?

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 Um pequena parte da história de Ian Curtis foi retratada no filme “24 Hour Party People” (A festa nunca termina); porém, somente no filme “Control”, dirigido por  Anton Corbijn, a vida do jovem músico (e a origem da banda)  é colocada em evidência. Há também o documentário “Joy Division”, lançado em 2007, que faz um recorte da banda, com imagens da cidade natal dos membros, e ainda traz entrevistas com todos eles; o documentário foi dirigido por Grant Gee. 

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O Rock e a literatura gótica caminham lado a lado à sete palmos…

Por Marcella Matos:

Poderíamos dizer (por que não?) que os precursores do estilo de vida rock and roll foram os escritores da literatura gótica do século XIX, já que estes, como Lord Byron (que inclusive em suas festas servia a bebida em crânios humanos, pois a caveira é o símbolo da efemeridade da existência) levavam uma vida boêmia, abusavam diariamente de bebidas, vícios, amores proibidos, tudo isso nas altas horas da noite. Em consequência à vida desregrada que mantinham, acabavam por  adoecer, e faleciam ainda muito jovens.

Autores brasileiros, como Álvares de Azevedo, foram influenciados pela literatura byroniana; estavam presentes em suas obras temas soturnos como satanismo, depressão, pessimismo diante da vida, atração pela morte, dentre outros; estes temas e muitos outros também foram influências para muitas bandas de rock a partir da década de 1970, principalmente por meio de escritores como Edgar Allan Poe; inclusive seus contos viraram músicas nas mãos do guitarrista Allan Parsons.

Dentre as bandas influenciadas encontram-se Black Sabbath (com seu rock satânico); aliás, Ozzy Osbourne, recentemente em sua autobiografia Eu Sou Ozzy, disse que a banda nunca foi satanista, e que tudo não passou de um plano para chamar atenção da sociedade. A história do morcego é verídica, entretanto, quando o fã atirou ao palco, Ozzy achou que era de borracha. E, o final da história todo mundo já sabe…

A lista das bandas marcadas pelo mal do século não para por aí; há o Bauhaus, banda gótica dos anos 70; Siouxie and The Banshees; David Bowie, que no videoclipe Blue Jean, deu vida ao personagem roqueiro Screaming Lord Byron; Joy Division, principal banda representante da desilusão pós-punk (Ian Curtis, vocalista da banda, aos 23 anos se enforcou na cozinha de sua casa); Iron Maiden, com sua música The Number Of The Best, e seu famoso refrão: “666 the number of the beast […]” e  Raul Seixas, com seu famoso Rock do Diabo.    

                             

Alice Cooper (com Prince of Darkness), Kiss,The Beatles e muitas outras bandas também encontram-se nesta lista; John Lennon escreveu Scared (apavorado em português; ele mesmo já disse que vendeu sua alma ao diabo).Como diria o escritor René Laban, não é segredo algum que muitas bandas de rock inspiram suas letras em mensagens satânicas.

 Como vimos, a literatura romântica gótica identificada com o satanismo, morte, desespero, loucura, subjetivismo, pessimismo, universo mórbido, e outros, influenciou não apenas o estilo musical gótico (como muitos pensam), mas também  o rock no geral e suas muitas vertentes (como o heavy metal e o pós-punk, por exemplo), com sua linguagem que apesar de antiga sobrevive ao tempo.  É a vida eterna da literatura gótica.

 

Allan Parsons com The Raven, poema O Corvo de Edgar Allan  Poe

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