Desplugado: Uma nota sobre o melhor dos acústicos parte 1

Por Marcella Matos

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MTV Unplugged é expert no quesito acústico; mas engana-se quem pensa se tratar de grupos tocando seus sucessos em guitarras acústicas, apenas: Muitas apresentações entraram para a história, bateram recordes de vendagem e são de uma emoção indescritível. A emissora, contudo, não foi a pioneira do formato: O primeiro registro em vídeo, no qual instrumentos elétricos foram substituídos pelos acústicos, foi realizado pela NBC em 1968, e trazia o lendário rei do rock, Elvis Presley. No final da década de 70, Pete Townshend e outros artistas produziram materiais nesse estilo em shows beneficentes, como o The Secret Policeman’s Ball; Esta foi uma apresentação inovadora, pois, na época, era raro um artista consagrado tocar seus maiores sucessos de uma forma tão simples; por outro lado, os acústicos foram popularizados pela MTV, cujo programa de número 1 foi ao ar em novembro de 1989. Entretanto, a empreitada da emissora só se tornaria um sucesso após a segunda temporada, com a participação de Paul McCartney, que lançaria Unplugged (The Official Bootleg) (1991). 

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 MTV Unplugged trazia uma proposta nostálgica:  Rememorar as raízes musicais antigas; lembrando que apenas há algumas décadas atrás quase todos os instrumentos ainda eram acústicos. As performances da MTV no estilo banquinho e violão eram protagonizadas, geralmente, por artistas que não se apresentavam nesse molde: envergavam, ao invés de guitarras elétricas e sintetizadores, o benquisto violão em apresentações intimistas. São músicas sob uma nova roupagem e artistas que saem da zona de conforto – para não soarem conforme os padrões estéticos de suas próprias composições, desconstruindo-as. Do mesmo modo, há críticos vorazes do formato, como o produtor musical Steve Albini (In Utero (1994) – Nirvana) que diz: “Do ponto de vista artístico, é uma piada total … Você tira bandas que são fundamentalmente de rock elétrico e colocam guitarras acústicas em suas mãos e fazem com que elas façam uma pantomima de uma performance. No entanto, a MTV Unplugged é um dos programas originais mais bem-sucedidos já produzidos pela MTV”.

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Nirvana:

O acústico do Nirvana é cercado de simbologias, digamos assim, pois o fato de ter sido lançado após a morte de Kurt Cobain (o vocalista morreu em abril de 1994 e o disco foi lançado em novembro do mesmo ano), só aumentou o caráter emblemático que cerca a gravação. Os músicos já notavam certo distanciamento por parte do vocalista, que apresentava constantes mudanças de humor ao longo dos ensaios e não apresentava mais àquela leveza de outrora… Kurt passava por grandes conflitos internos e extensa carga emocional que desencadearia no triste acontecido: suicídio, alguns meses depois.

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 O Nirvana optou, no geral, por covers de artistas menos conhecidos (como Meat Puppets, Leadbelly, The Vaselines) e passou longe de seus grandes sucessos (cantou somente Come as You Are, canção de Nevermind (1991), entrando em conflito, por isso, com a produção do programa. Segundo o baterista Dave Grohl, o Nirvana queria fazer algo diferente: “Nós vimos os outros acústicos e não gostamos muito deles, porque a maioria das bandas queria tratá-los como shows de rock; tocar seus sucessos como eles eram no Madison Square Garden, com a exceção de violões.” Toda a gravação se sucedeu de uma forma bastante orgânica, sem repetições de músicas, com decisões tomadas em cima da hora mesmo, sem scripts ou roteiro.02

Uma curiosidade sobre Where Did You Sleep Last Night, canção que Kurt Cobain canta com grande pesar e emoção: os produtores do acústico pediram para que o vocalista a repetisse (pois, tinha errado a letra); ele, claro, se aborreceu e recusou o pedido.

Os ensaios e a pré-produção foram bastante tensos, tendo Kurt Cobain desistido de se apresentar um dia antes do show, pelos motivos já citados (como o embate com a produção do programa). O Nirvana gravou seu acústico em uma única tomada, algo curioso e incomum, pois os artistas faziam em mais de uma, na busca de uma sonoridade mais satisfatória. Até a escolha do cenário (velas e lírios, muito utilizados nos velórios) colaborou para a aura mítica que cerca o MTV Unplugged In New York, do Nirvana (como se Kurt dissesse adeus). Este show foi histórico, porque foi uma das performances televisivas finais de Kurt Cobain, que morreria cinco meses depois. Toda essa soma de elementos atípicos (covers incomuns, ausência de grandes sucessos e com tomada única; cenário inusitado, clima intimista e melancólico, trouxe um resultado particular, bem como almejavam os músicos.
MTV Unplugged: Nirvana

Korn:

Gravado em meados de 2006, o acústico de uma das bandas precursoras do Nu Metal não agradou, tanto assim, a maior parcela dos fãs… Polêmicas à parte, pois dificilmente um trabalho que saia dos moldes tradicionais (daquilo que se espera sonoramente dos músicos de um determinado estilo) agrada em cheio o público; o MTV Unplugged: Korn (2007) é um álbum interessante, que apresenta algumas versões, digamos, excêntricas, com arranjos bem distintos, que soam por ora um pouco exagerados, mas que se casam muito bem com a proposta do acústico. Depois de munidos todos os elementos do disco, temos um resultado agradável que foge do óbvio e chama atenção pela quantidade de nuances (graças à incorporação de instrumentos como cello, trombones e taiko/percussão japonesa) integrado às músicas.

MTV Unplugged With Korn

O acústico do Korn contou com a participação de Amy Lee (Evanescence), Robert Smith e Simon Gallup (The Cure). Logicamente que os covers marcaram presença: Creep (Radiohead) e In Between Days (The Cure); ambas possuem uma atmosfera macabra, melancólica e soturna; resultado de como a banda conciliou vozes, instrumentos, arranjos, ambiência visual (os músicos de apoio se apresentaram de máscaras), etc. de uma forma que surgisse uma atmosfera simbolicamente cinzenta diante dos nossos olhos.

Faixas como Freak on a Leash, Blind, Hollow Life e Falling Away From Me foram apaziguados/amaciados sem perder, com isso, o peso e a rudeza da composição; mesmo assim, muitos fãs estranharam desde o início (e alguns continuaram estranhando até o fim) a sonoridade, acostumados, é claro, com ooutroKorn …
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Legião urbana:

Legião Urbana representa uma época que clamava por mudanças: Políticas, sociais e comportamentais. Expoente do rock nacional, as ideias e o discurso dos brasilienses eram porta-voz de uma juventude em busca de uma identidade perdida, oriunda das marcas deixadas pela ditadura militar. O processo de redemocratização do Brasil foi o marco para àquela geração. Influenciado por bandas de punk-rock, cujas letras abordavam temas políticos e questionavam crenças e valores tradicionais, Renato Russo, ainda adolescente, forma o Aborto Elétrico, banda que foi o embrião da Legião Urbana; esta, contribuiu para a construção da linguagem do rock nacional. As letras compostas pelo trio refletiam as incoerências deste vasto país, mas Brasília era a principal inspiração dos músicos, afinal de contas é o centro político e de poder do país. Críticos vorazes, cada uma das canções compostas pela Legião Urbana ao longo da carreira, demonstram uma realidade tão próxima de todos nós: Geração Coca-Cola narra a imersão dos jovens aos costumes estrangeiros e a letargia contestatória dos mesmos (desinteresse por lutas); já em Teatro dos Vampiros expunha as dificuldades passadas pelo povo brasileiro em decorrência de políticas neoliberais (em terras tupiniquins, onde impera a desigualdade social, é um agravante); citando apenas duas obras do grupo.

legio-urbana-acustico-mtv-c-encartwe-dvd-original-D_NQ_NP_21798-MLB20217897404_122014-FApós desembarcar em terras brasileiras, a MTV Brasil produziu sua versão para a série Unplugged; houve alguns pilotos do programa, que não produziram discos ou sequer foram exibidos (como o de Marcelo Nova, por exemplo). Gravado em 1992, o Acústico MTV Legião Urbana, apresenta uma simplicidade de produção, que chama atenção: A banda tocou com auxílio de apenas dois violões e uma singela percussão; até a escolha do cenário (ausência de elementos figurativos) é desprovido de superprodução. É considerado, por muitos veículos especializados, um dos melhores acústicos já realizados pela emissora brasileira. O destaque é a grandiosidade da banda (demonstrada com tão poucos suportes).
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Os grandes sucessos não ficaram de fora; Renato Russo, Dado Villa Lobos e Marcelo Bonfá tocaram Faroeste Caboclo, Pais e Filhos, Há tempos… Houve espaço para canções que, até então, nunca tinha sido gravadas, como Teatro dos Vampiros e Hoje a Noite Não tem Luar (versão). Entre os covers que a Legião Urbana executou, estão: Jesus & Mary Chain (Head On) e Neil Young (On The Way Home / Rise). Sucesso de vendas, o acústico MTV Legião Urbana, só na primeira semana, vendeu nada menos que 700 mil cópias.

 

Kiss:

O Hard Rock enérgico do Kiss resistiu a inúmeros modismos e movimentos musicais (dos mais variados estilos) ao longo dos quarenta anos de carreira. Contudo, uma fase relativamente conturbada para a banda foram os anos 90, época que marcou o enfraquecimento comercial do Heavy Metal e subgêneros; neste período lançaram Revenge (1992), disco com ótimas composições que resgata, ao longo das doze faixas, aquele velho espírito do Kiss (que andara um bocado adormecido, perdido em meio a tantos ‘encaixes’). Há nele poderosos e pesados riffs, performances inesquecíveis, solos, andamentos e linhas de guitarra magistrais. Destaque para a ótima fase do quarteto, pois o entrosamento entre os músicos é perceptível (Eric Singer e Bruce Kulick – o guitarrista já colaborara em antigos lançamentos – adicionaram frescor à dupla Simmons e Stanley). O quarteto entrega um Hard Rock poderoso e cheio de vigor; em grande parte, mérito das exímias parcerias: Vinnie Vicent (ex-membro), Russ Ballard (Argent), Jesse Damon (Silent Rage), Kane Roberts (Alice Cooper) e Bob Ezriz (produtor do álbum) participam como co-autores de algumas canções do disco. Ironias à parte, o álbum foi muito bem recebido pelos fãs ao mesmo tempo em que teve uma vendagem modesta nos Estados Unidos (foi bem mais acolhido em outros mercados).

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Três anos após o lançamento de Revenge, foram convidados pela MTV a se apresentarem na série Unplugged. Na ocasião, os antigos membros Peter Criss (bateria) e Ace Frehley (guitarra solo) foram convocados, por Simmons e Stanley, a participarem da reunião; as desavenças foram deixadas de lado: os quatro integrantes da formação original não dividiam o mesmo palco desde 1979. Em alguns momentos, Eric Singer e Bruce Kulick retornavam aos palcos para completarem o sexteto. O acústico do grupo faz uma espécie de compêndio, um resumo da obra, pois habilmente revisitam sua discografia; estão presentes canções dos seguintes álbuns: Kiss (1974), Hotter Than Hell (1974), Dressed to Kill (1975), Destroyer (1976), Love Gun (1977), Dynasty (1979), Music From “The Elder (1981), Creatures of the Night (1982) e Revenge (1992). 

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Eles elegeram 2000 Man como cover; esta canção, composta pela dupla Mick Jagger e Kaith Richards, fora gravada anteriormente pela banda, no disco Dinasty. A versão do Kiss possui um arranjo diferente da original (dificilmente associamos uma à outra), o que traz à música a impressão de ter sido escrita pelo próprio Ace Frehley e companhia. 

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A reunião clássica foi mantida em segredo pelos produtores do programa até o dia da gravação (imagine a surpresa dos fãs!). Alguns críticos musicais chamam o Kiss Unplugged (1996) de “ambiente majoritariamente eletro-acústico”, mas enfatizam a qualidade das canções: “período clássico da banda”. O concerto acústico equivaleu a uma (competente) retrospectiva da carreira do grupo, que tocaria novamente junto com Frehley e Criss na turnê Alive/Worldwide Tour!(1996/1997).

 

Aerosmith

The Cure

Paul McCartney

Eric Clapton:

Os produtores do programa não imaginavam que a primeira temporada seria um sucesso absoluto de público, pois era, no mínimo, curioso assistir aos artistas interpretarem seus grandes sucessos sem aquela grande produção por trás; em concertos para lá de especiais, tocavam as músicas do modo como tinham sido compostas.  A repercussão positiva dos treze primeiros episódios rendeu à série sua segunda temporada que contou com artistas como Aerosmith (novembro/90), The Cure, Paul McCartney (ambos gravado em janeiro/91) e outros grandes nomes.

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Gravado em 11 de agosto de 1990, o episódio do Aerosmith concentrou todos os holofotes no programa, digamos assim, pois a banda de hard rock fez barulho e acabou por divulgar esporadicamente a atração, ao mesmo tempo em que abriu espaço para que outros artistas, tão legais quanto, viessem tocar nesse formato. Mas, diferente de seus colegas de profissão, o Aerosmith não lançou um álbum da performance ao vivo.

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A banda britânica The Cure foi a primeira atração da versão europeia do MTV Unplugged. A apresentação foi gravada em um pequeno (e intimista) estúdio londrino. O acústico de McCartney viria logo em seguida e mudaria para sempre os meandros da história do programa…
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Para o produtor do programa, Alex Coletti, a participação de Paul McCartney foi fundamental para a popularidade, êxito e sobrevivência do MTV Unplugged. A apresentação do músico inglês se configurou como um divisor de águas, que desencadearia no lançamento do primeiro registro da série: Unplugged (The Official Bootleg) (1991).

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Diferente dos demais episódios, Paul McCartney se apresenta com instrumentos totalmente desplugados (é comum os artistas fazerem uso dos instrumentos acústicos plugados a amplificadores, na verdade). De acordo com fontes de alguns veículos musicais “os microfones foram cuidadosamente colocados perto de guitarras, pianos, etc. para pegar o som (isso pode ser visto na capa do álbum, onde um grande microfone retangular é retratado na frente do violão acústico de McCartney)”. O apanhado de músicas, selecionadas por Paul, se adaptou perfeitamente ao formato acústico.

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Unplugged (1992), álbum de Eric Clapton conquistou feitos memoráveis; o desempenho ao vivo do músico lhe rendeu seis prêmios Grammy, dentre eles o de melhor álbum do ano (inédito para o formato Unplugged). Elogio de crítica e público, o disco vendeu nada menos que 26 milhões de cópias mundo afora. E o fato de ver um dos maiores guitarristas da história do rock trocando sua (quase extensão do braço) Stratocaster por um ‘singelo’ violão é no mínimo inusitado. Nossa admiração pela carreira substancial de um dos músicos mais excepcionais daquela geração só aumenta tamanha a simplicidade dele: Após concluir a ‘tracklist’ da apresentação, Clapton se dirige à plateia e diz um modesto: “é isso”; logo depois, menciona a necessidade de repetirem “duas – não, três – não, cinco músicas… Se vocês não se importarem, eu não me importo…”, complementou.

Destaque para a nova versão de Layla, Tears In Heaven (escrita para seu filho Conor, que morreu ao cair do 53° andar) e Rollin’ and Tumblin’ (gravado pelo Cream, Muddy Waters e outros músicos). Clapton fez (novamente) história, pois a apresentação é considerada como umas das melhores já exibidas, ao mesmo tempo que é tida como referência: de competência técnica, qualidade sonora, talento e versatilidade.eric-clapton-unplugged-pic-701x473O MTV Unplugged dispões de um passado longo; recebeu uma ampla gama de artistas dos mais variados gêneros musicais e foi palco de encontros memoráveis, como o de Rod Stewart e Ronnie Wood – ambos fizeram parte do Jeff Back Group; com o término da banda se juntaram a Ian McLagan, Ronnie Lane e Kenney Jones (até então integrantes do Small Faces) e formaram o The Faces -. A série de música acústica tão aclamada não ostenta mais o peso e importância de outrora, mas deve ser reconhecida por ter alcançado públicos tão amplos e sido, ao mesmo tempo, “um marco revolucionário e cultural na indústria da música”, descreve uma fonte especializada.

Aguarde a segunda parte deste artigo!

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Mascotes do Rock: Um clássico animado – Parte 2

Por Marcella Matos

A primeira parte pode ser conferida aqui.

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Roy – Children of Bodom

O ceifador é uma figura emblemática nos contos fantásticos e histórias de terror. É aquele que mata; que tira a vida do outro… Ninguém mais apropriado para estampar a imagem do Children of Bodom, não é mesmo!? A inspiração para o nome da banda (As Crianças de Bodom) foi o cruel assassinato de três jovens às margens do Lago Bodom. O crime aconteceu na década de 60, chocando a população finlandesa, e jamais fora desvendado; este fato justificaria o porquê da escolha de um ceifador sem rosto para ilustrar as capas dos discos dos finlandeses: pois se trata de um assassino sem face.

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As tonalidades da vestimenta de Roy variam bastante de disco para disco, mas são cores que sempre remetem a sensações de desespero, solidão e frieza. E a impressão que a figura encapuzada nos causa é a de que está sempre à nossa espreita…

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Uma curiosidade desse fascinante país nórdico é o elevado número de músicos: A Finlândia abrange a maior quantidade de bandas de Rock e Heavy Metal per capita do mundo!

Desde o lançamento do primeiro disco, em 1997, o espectro de Roy é evocado para as ilustrações das capas… Até o mais recente lançamento do Children of Bodom (I Worship Chaos, 2015), o mascote tem demonstrado vida longa.

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The Guy –Disturbed

Um simples sorriso debochado e ameaçador, por vezes, intimida mais que uma singela cara feia; partindo deste preceito, The Guy, mascote da banda norte-americana Disturbed, designa seu trabalho com maestria.  Assim como Eddie (Iron Maiden), o mascote do Disturbed era apenas uma cabeça sem corpo que ganharia forma mais à frente. O The Guy definitivo, com corpo imponente e olhar desafiador, ficou por conta do traçado de David Finch.

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O cara’ aparece nas capas dos discos, e nos vídeos para a divulgação da banda, como o típico anti-herói. Àquele, apresenta características que divergem do herói tradicional, pois, caminha na linha tênue entre o bem e o mal, acatando virtudes e princípios facilmente questionáveis; mas ao mesmo tempo são personagens que causam certa estima por parte do público, pois a ambivalência entre o que é certo e errado é cada vez mais relativizada.

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É um mascote difícil de rotular; assim como a banda que, por sua vez, apresenta uma sonoridade bem particular: Combinação de Heavy Metal tradicional com New Metal, Hard Rock e Alternative Metal… Dá uma mistura meio louca, mas que funciona. Nem as letras das músicas possuem uma certa ‘unicidade’ de temas: tudo tem  potencial de se transformar em canção.

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Fiend Skull – Misfits

Imagem mais icônica que a da própria banda, o mascote, amplamente utilizado pelo Misfits, teve por inspiração o misterioso vilão mascarado Crimson Ghost, da série/filme homônimo. O ‘esquelético semblante’ é o invólucro que estampa a figura do Misfits desde 1979 (apareceu pela primeira vez em um cartaz de divulgação da banda). A admiração pela sétima arte é aparente, afinal de contas as ferramentas de marketing do Misfits, sempre que possível, adentram essa temática. O próprio nome “The Misfits” foi pego ‘emprestado’ do último filme estrelado por Marilyn Monroe.

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Diferente de outras bandas de Punk Rock, cujas letras são um tanto ‘raivosas’ (algo mais voltado para denúncia, protesto e ebulição jovem), o Misfits retrata em suas composições amores trágicos (ou fracassados) e a ambiência macabra das histórias de terror a la Edgar Allan Poe. Em se tratando de aspectos externos, difere das bandas do gênero, pois, dispõem de uma forte natureza visual, como o uso de maquiagem, vestimenta específica e abuso de elementos gráficos (no estilo filmes de terror à moda antiga). Apesar disto, a sonoridade acelerada, ríspida e de poucos acordes é típica do punk tradicional, que de certa forma eles ajudaram a construir.

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O curioso é que a trajetória da banda, que é repleta de reveses e reviravoltas, poderia constar em um roteiro cinematográfico: O Misfits se desfez em 1983 antes de conquistar seu espaço. Glen Danzig (vocais) partiu para carreira solo e tempos depois se inicia uma melindrosa batalha jurídica entre os fundadores da banda (Danzig e Jerry Only – baixista) sobre a posse do nome “Misfits”; pois um possível retorno era propício naquele momento… O Metallica tinha gravado covers deles (“Last Caress” e “Green Hell”); o que rendeu à macabra banda certa visibilidade. Oito anos após o início do processo, Only conquista o direito ‘de posse’ e a banda ressurge das cinzas.

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A primeira aparição de Fiend Skull em um cartaz de divulgação

O Misfits gravou três discos com a formação clássica, com Gleen Danzig e Jerry Only dividindo os palcos da cena underground de Nova York: Static Ages (1978) foi lançado após (incríveis) duas décadas! Walk Among Us (1982) e Earth A. D./Wolfs Blood (1983) vieram logo depois. Depois de um hiato de 33 anos, os dois pilares principais do grupo tocaram novamente juntos no festival Riot Fest (2016), que aconteceu em Chicago e Denver (EUA). E o diabólico craniozinho segue firme e forte…

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Set Abominae – Iced Earth

Desde o início, por volta de 1985, o Iced Earth (ainda sob o nome de Purgatory) prezava obstinadamente pela qualidade de suas criações. Ainda se apresentando em pequenos locais (e para grupos menores ainda), a desenvoltura nos palcos e a qualidade sonora eram levados bastante a sério pelo grupo. Mesmo com o capital inicial curto a banda se esforçava para conquistar seu espaço dentro da cena. Os minuciosos cuidados consistiam em interferências visuais que incluíam desde fogos de artifícios, fantasias épicas, performances excêntricas (digna de muitos aplausos) e todo tipo de elementos que davam um “quê” a mais às apresentações. Todo esse empenho (e dedicação) do Purgatory constituiu num diferencial que projetou ainda mais a banda.

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Já sob a alcunha de Iced Earth, os integrantes se voltaram para a divulgação do seu recente trabalho: A demo Enter the Realm (1988), cuja sonoridade era menos lapidada (se comparada aos trabalhos pósteros), mas ao mesmo tempo  combinava um Heavy Metal mais clássico (como o Iron Maiden e Judas Priest) aliado a características sonoras do Thrash Metal (reinante no território norte-americano da época). Com o lançamento do segundo disco Night of the Stormrider (1991) – o debut foi o homônimo Iced Earth em 1990 –, a banda atingiu um novo patamar visual, sonoro, criativo e, além disso, um desempenho ainda mais competente nos palcos. A soma dos riffs e solos de guitarras associado a uma bateria eficiente, bons arranjos e um vocal potente fizeram do disco uma referência entre as discografias da banda.

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Set Abominae só daria o ar de sua ‘perversa’ graça após os lançamentos Burnt Offerings (1995) e The Dark Saga (1996); mas exatamente no disco Something Wicked This Way Comes (1998). A partir dali a criatura alienígena despontou e, novamente, viria a se manifestar em futuros trabalhos. O quinto álbum da banda é uma excelente obra e, sem sombra de dúvidas, figura entre os melhores da banda. O conceito do disco é baseado na seguinte estória: A raça setian eram os residentes do planeta Terra até o momento em que a raça humana (vinda de outro planeta) ocupou a Terra à força e dizimou a maioria dos legítimos habitantes (aqueles que sobreviveram se refugiaram numa comunidade clandestina)… Set Abominae é o encarregado da vingança (Setiana) àquele evento. A queda dos homens, a sua destruição e a ascensão daquela raça primitiva é o cerne da trilogia dos discos: As últimas três faixas de Something Wicked This Way Comes seriam a introdução, digamos assim, para o desenvolvimento e a conclusão do enredo conceitual da saga que, por sua vez, viriam com o lançamento dos discos Framing Armageddon (Something Wicked part I) e The Crucible of Man (Something Wicked part II), lançados em 2007 e 2008, respectivamente. A história de Set Abominae reapareceria em outros registros de estúdio.

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O algoz, responsável pelo despertar da ruína humana, é a figura do próprio homem. A decaída da humanidade é o reflexo da fome de poder e do conhecimento desmesurado. Set Abominae, fruto de uma profecia, encarna uma espécie de ‘messias maligno’ que conspira e intensifica todo o potencial autodestrutivo do homem: Ele semeia conflitos diversos, como o religioso, por exemplo, com intuito de dividir os homens e torná-los ainda mais fracos e vulneráveis; é o agente motivador por trás dos escombros da ética humana, das guerras, mentiras, intolerância e alienação das mentes; enfim, todo um quadro de caos, cujo fatídico desfecho será inevitável caso a humanidade não reaja a tempo. Luta e resistência são questões de sobrevivência para a espécie.

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Sobre um possível final para as canções da saga, Jon Schaffer (líder e guitarrista da banda) responde:

“[…] A coisa legal sobre a história do Something Wicked é que você pode levar qualquer período da história humana, e aplicá-la ao universo Something Wicked… […] O que isso é, eu não sei, mas sei que poderia contar horas e mais horas de histórias relacionadas à Saga Something Wicked. Isso é fácil. E é realmente é divertido fazê-lo”.

Ao longo de toda a carreira, o Iced Earth já passou por drásticas (e questionáveis) mudanças em sua formação: Jon Schaffer é o principal núcleo criativo (Set Abominae é obra sua) e único membro original – as demissões são frequentes na banda -, o que não a impossibilitou de estar entre as melhores quando o quesito é qualidade e harmonia acústica, afinal de contas eles são mestres em aliar peso e melodia!

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Jon Schaffer: Manda quem pode, obedece quem tem juízo…

 

Manowarrior – Manowar

Dizia um importante teórico da área de comunicação que as tecnologias funcionam como extensões do corpo humano (automóvel como prologamento dos nossos pés, garfo como extensão dos dedos, etc.); assim como dos sentidos humanos (rádio como extensão da voz/ouvido, computador como ampliamento da capacidade cerebral, etc.)… Humildemente, faço uma analogia daquele conceito acadêmico com a própria trajetória do Manowarrior: Pois, o mascote funcionaria, a meu ver, como extensão da própria banda. Grandeza, robustez, energia e intensidade fazem parte de ambos.

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Conan, O Bárbaro,  personagem criado por Robert E. Howard remete à figura de Manowarrior, pois as similaridades reforçam a forte associação: Conan, nascido em meio às dores e destruição de uma guerra, tornou-se um guerreiro destemido, com forte resistência e, de igual, disposição violenta; sua força exterior (músculos avantajados) condiz com a destreza espiritual, latente nos momentos de confronto com o adversário.

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Corpo que se estende além da música ou a música que se estende além do corpo? A natureza selvagem e complexa (rosto eternamente imerso nas sombras) do Manowarrior não nos permite responder… A não ser a certeza da imagem dele como reflexo fidedigno das letras (que se tornaram hinos) para a legião de fãs (que, por sua vez, se converteram em aliados de guerra), conhecidos como “Os Manowarriors”. 

Fiel à imagem do Homem de Guerra (que derrota o inimigo), os nova-iorquinos detêm majestosas conquistas dignas de figurar no livro de história dos recordes:  A banda executou o show mais alto (medido em decibéis) e, ao mesmo tempo, longo (5 horas) já registrado! Feito histórico para ser difundido como num longo e feroz grito de guerra…

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Manowar e a sua legião de fãs (Manowarriors)

Hector – Hammerfall

Ferramentas de pedras e ossos foram essenciais para a sobrevivência e evolução de nossos ancestrais; desta forma, sempre estiveram presentes, ‘construindo’ a história da humanidade. O plano lúdico se apropriou dessa circunstância, pois as armas envergadas pelos super-heróis são elementos (de extremo valor) recorrentes nesse universo; representam coragem, força e bravura; precisamos saber manobrá-las para vencer as batalhas: Hector, o paladino sombrio do Hammerfall, exibe uma bela armadura e empunha um majestoso martelo.

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Martelo para o alto! Para o céu!
Siga o guerreiro! Invoque o hino de Hector!
Martelo para o alto! (Martelo para o alto!) Amplificar!
Saúde a chamada do guerreiro o hino de Hector!

(letra de “Hector’s Hymn” (2014)

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Bem como os cavaleiros da idade média que vagam pelo mundo à procura de façanhas que lhe tragam sentido (e reconhecimento) à vida, Hector está nesta jornada há mais de duas décadas,  envergando a bandeira do Hammerfall desde então… A chegada do mascote coincide com a origem da banda: Glory to the Brave (1997), primeiro disco dos suecos, já trazia a figura do destemido cavaleiro. Hector não comparece no álbum Infected (2011)… Todavia,  sua presença se tornou frequente nos palcos a partir da turnê com a banda Dio, no ano de 2002, período em que sua popularidade no continente americano aumentou. E seu retorno triunfante no (r)Evolution (2014)  foi um evento extraordinário, pois, novamente, lá estava a banda “retornando os temas líricos e os reais temas de fantasia medievais e, também, tinha Hector que era uma presença muito bem-vinda“. Diz a Encyclopaedia Metallum: The Metal Archives.

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The Painkiller – Judas Priest

Embora não seja uma criatura constante nos discos da banda, Painkiller traduziu bem o momento que os ingleses atravessavam: O lançamento do disco homônimo sintetiza o espírito do estilo: Encarna o que é o metal. Todo mundo vai um milhão de milhas por hora nele, e ainda assim a melodia aparece. Tornou-se uma disco muito importante para o Priest, e também para o metal, penso”, disse Rob Halford em entrevista à revista Kerrang! Painkiller (1990) surgiu após dois conturbados lançamentos – Turbo (1986) e Ram It Down (1988) – que demonstrava uma banda não mais 100% segura das suas escolhas, pois seguia por caminhos que davam a impressão de desnorteio, próximo a uma crise existencial musical mesmo; incompreendida pelos fãs e, também, pela crítica, o Judas Priest seguia… Custoso de entender, principalmente por se tratar de uma das maiores bandas que o metal já forjou.    

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“Mais rápido do que uma bala
Um grito apavorante
Enfurecido e cheio de raiva
Ele é metade homem, metade máquina”

        (letra de painkiller – 1990)

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A música retrata a história de um anjo metálico, enviado para vingar a humanidade dos malfeitores do mundo. O mascote estampou mais duas capas do Judas Priest: Jugulator (1997) e Angel of Retribution (2005); este último marca o retorno às origens (musicais) da banda e, também, da formação clássica do Priest, com Halford nos vocais. 

JP-Painkiller

Painkiller (1990): marco para o ‘speed metal’

Mark Wilkinson, ilustrador inglês, foi o responsável por criar as três capas já citadas, além de outros lançamentos do Judas Prist, como Ram It Down (1988), Nostradamus (2008) e Redeemer Of Souls (2014). O artista é muito requisitado por bandas, artistas (autores de livros) e eventos (criou os cartazes do Monsters of Rock); já desenvolveu diversos tipos de trabalhos por possuir uma fluidez de traços e riqueza de elementos muito ampla; A ilustração de Fugazi (1984), disco do Marillion já proporcionou importantes prêmios a Wilkinson. Além do Marillion, o ilustrador já criou obras para o Iron Maiden, The Who, Jimmy Page, dentre outros grandes nomes da música.

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Mark Wilkinson: Trabalhos com o Marillion, Iron Maiden e Judas Priest

“Todos os registros que fizemos, tentamos dar-lhes alguma distinção, alguma identidade separada. British Steel (1980) não soa como Stained Class (1978), Stained Class não soa como Painkiller (1990), Painkiller não soa como Defenders of the Faith (1984)… Então eu acho que tudo tem seu lugar e tem seus momentos, e sempre nos alimentamos com diferentes áreas e, ao mesmo tempo, entramos com nosso metal. Então graças a Nostradamus (2008), temos Redeemer of Souls (2014)”, disse Rob Halfard no laçamento do álbum de 2014. 

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Outros macotes que ilustraram discos do Judas Priest: Fallen Angel, Metallian e Hellion.

O Judas Priest rompeu paradigmas, suas marcas (férreas) são duradouras e visíveis o bastante para observamos a olho nu: o rock não seria a mesmo (tão pesado e veloz) sem a contribuição sonora (e esmagadora) deles.

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Mad Butcher – Destruction 

Açougueiro insano, carniceiro louco, psicopata, homem maníaco… Poderíamos denominá-lo de inúmeras formas, mas o indivíduo citado não está muito preocupado em convenções, pois, assim como o Destruction, foge do usual, do costumeiro… Afinal de contas, quantas bandas de Rock ou Heavy Metal dispõem de humanos como mascotes?

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Mad Butcher é o segundo EP da banda alemã, lançado em 1987, cuja canção de mesmo nome se tornou um clássico para os fãs do Thrash Metal. Este EP funcionou como uma pequena demonstração sonora, pois dois novos membros tinham entrado na banda, Olly Kaiser (bateria) e Harry Wilkens (guitarra). O resultado foi o registro de um Destruction mais técnico e preciso.

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“Açougueiro Maluco
Um fogo está queimando em seus olhos
Seu cérebro está na guerra e o mal ele levantará
Seu sangue é preto, está fervendo
Agora ele irá passear,
Ele sabe da sua sorte”

(Letra de Mad Butcher – 1987)

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Após a saída de Marcel Schimier da banda (em 1989), Mad Butcher é afastado por tempo indeterminado… O vocalista retornaria à banda nos anos 2000; o patológico açougueiro dissimulado, de olhar mofino e sorriso mórbido reaparecia para o deleite dos fãs de longa data.  O avental ensaguentado e a faca de dois gumes prevalecem (e aparecem nos shows): aparência amedronta, intimida, aterroriza e espanta qualquer desavisado (e desafortunado) que lhe cruzar o caminho:

“Através das ruas escuras da cidade
Seus passos estão ecoando
Agora ele é arbitrário, oh ele está ofegante
Em sua mão uma lamina de sólido aço
Agora é a hora de você sentir”

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Uma curiosidade: Mad Butcher também é o mascote oficial do Frente Radical Verdiblanco, time de futebol colombiano! 0.0

Concluindo a matéria… Achei interessante uma analogia feita pelo site Loudwire.com, que compara mascotes de clubes esportivos aos das bandas de metal, com a diferença de que àqueles não disputam desajeitadas ‘corridas’, mas se encontram, ao invés disso, em inúmeras situações de perigo. Vida longa à eles!

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Em sentido horário: Danzig, Blind Guardian, Runnig Wild, Anthrax, Sodom, Primal Fear, Overkill, Gamma Ray, Mötley Crüe, Avenged Sevenfold, Kataklysm, Grave Digger

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