Heavy metal: Uma religião

Por Marcella Matos.

O heavy metal não é apenas um estilo musical, muitos diriam que é a essência da própria vida, uma ponte entre o real e o imaginário, uma verdadeira religião, cultuada por milhões de adeptos, quem é fã sabe que não exagero, e em respeito a eles, e em homenagem a um dos estilos mais deturpados e rotulados pela sociedade e afins; senhoras e senhores uma salva de palmas, pois entra em cena personagens que deram muito o que falar, principalmente na década de 1980; pois o que seria do criador (heavy metal) sem sua criatura (headbangers)? 

Suas origens remontam do fim da década de 1960 e início da década de 1970, e suas raízes são bem claras para os adeptos, tendo o heavy metal bebido da fonte do blues sul-americano e da música clássica de  Richard Wagner, músico que revolucionou a música, incorporando na orquestra instrumentos até então nunca visto antes, pelo menos num concerto de música clássica. 

 

E há um questionamento clássico que divide opiniões de muitos fãs do heavy metal sobre qual foi a banda que primeiramente bebeu dessa fonte, e deglutiu o estilo mais odiado e amado de todos os tempos. Em depoimento ao documentário Metal: A viagem de um headbanger, músicos e produtores dão suas opiniões: “Blue Cheer”, diz Geddy Lee, do Rush; mais outros nomes são citados, como Led Zeppelin, Deep Purple… Mas parece unânime (ou quase) quando apontam para o Black Sabbath, mais especificamente Tony Iommi, como responsável pelo surgimento do heavy metal.

 

O heavy metal em 1986 se torna o estilo musical mais popular do mundo (e o glam rock foi responsável por colocar o heavy metal no topo), de acordo com o documentário Metal: A viagem de um headbanger, dirigido por Sam Dunn, amante incondicional do estilo; ele, antropólogo, resolve estudar a cultura que mais lhe interessa desde os doze anos de idade, o heavy metal.

 

 

 

Geralmente boa crítica e grande público não andam juntos, Jorge amado é um bom exemplo disso, as duas coisas não caminham lado a lado, não tem como você ser bem visto pela crítica e  ser amado pelo público ao mesmo tempo, e com o heavy metal não seria diferente; um artigo americano já chamou o heavy metal de um estilo doente, repressivo, horrível e perigoso.

Com certeza você já deve ter visto esta etiqueta de advertência:

Pois bem, ele surgiu a partir da denúncia de que o heavy metal seria um estilo de muito mau gosto, promíscuo, obscuro… Enfim, tais acusações deram origem as tais etiquetas.

O documentário traz ricas informações a respeito desse fenômeno de horror e medo que o heavy metal causava nos pais: “Dee Snider [vocalista do Twisted Sister] nos anos 80 era considerado o cara mais perigoso do planeta”. Mas como? Vamos aos fatos.

O CPRM (Centro de Pais de Recursos Musicais) divulgou uma lista na qual eram citados quinze artistas e bandas: “Os 15 obscenos”, na qual suas respectivas músicas eram consideradas obscenas. Para se ter uma ideia da gravidade da situação, até Dee Snider foi convocado para testemunhar frente ao congresso. Segundo Snider: “Diziam que Under the Blade tratava sobre sadomasoquismo, quando tratava sobre operação de garganta do nosso guitarrista”. 

 

Das quinze músicas listadas, oito eram de bandas de heavy metal: Judas Priest (Eat me Alive); Mötley Crüe (Bastard); W.A.S.P (Animal) Fuck Like a Beast); Def Leppard (High’n Dry); Twisted Sister (Were not Gonna Take It); AC/DC (Let me Put my Love Into You); Black Sabbath (Trashed) e (Venom). 

Muitas bandas de heavy metal eram consideradas satânicas (e muitas eram condenadas por isso), mas na verdade foram as próprias bandas as responsáveis por tal difusão, já que alimentavam este imaginário popular a partir das letras das músicas, discursos, performances no palco, capa de discos… As bandas utilizavam deste recurso para impactar e chocar a sociedade, fazê-la prestar atenção no novo e pesado jeito de ser fazer rock, para se tornarem populares, ganhar mais espaço comercial, enfim; no depoimento de Gavin Baddley: “O heavy metal, desde seu início, foi associado ao satanismo e entretanto a canção Black Sabbath falava de satã como algo a temer[…] No entanto os fãs queriam uma banda satânica, e as pressões comerciais impulsionaram o Black Sabbath a explorar esta espécie de conexão entre eles e as imagens diabólicas[…]”. Diz no documentário Metal: A viagem de um headbanger.

 

Uma parte interessante do documentário foi quando Dunn perguntou a Tom Araya, líder do Slayer, que por sinal é católico! Sobre o título do oitavo disco do Slayer, God Hates Us All, que traduzindo em português seria “Deus Odeia a Todos Nós”, ele respondeu: “Deus não nos odeia. Mas é um grande título. Quando escolhemos o título do álbum, pensei: Maldição! Este é mesmo do caralho! Creio que incomodará as pessoas”.   


 

Deena Weinstein,  escritor, diz que o som, o timbre e o volume são poderosos elementos-chave do metal. Nas palavras de Dickie Peterson, vocalista do Blue Cheer: “Tudo o que sabíamos é que queríamos mais força”. Muitas bandas posteriores à década de 1970, foram incorporando ao heavy metal mais velocidade, agilidade, vocais mais vigorosos, entre outras características que lhe deram outras roupagens.

O heavy metal é um estilo musical tão rico, e bebeu de tantas fontes do rock e afins, que inevitavelmente apresenta inúmeros subgêneros, cada qual, de acordo com suas influências, apresenta características próprias. “As primeiras bandas de METAL [Black Sabbath, Led Zepellin, Jimi Hendrix, Cream, Blue Cheer, MC5, Mountain, The Stooges…] junto ao HARD ROCK [AC/DC, Testament, Blue Öyster Cult], SHOCK ROCK [Kiss, W.A.S.P., Alice Cooper, Arthur Brown] e PUNK [ The Clash, Ramones, Sex Pistols] deram origem a um monte de subgêneros […]”. Diz Sam Dunn.

PRIMEIRAS BANDAS DE METAL

HARD ROCK

SHOCK ROCK

PUNK

 Os Subgêneros são muitos: power Metal (Iron Maiden e Motörhead), metal Progresivo (Rush e Dream Theater), glam metal (Cinderella e Skid Row), pop metal (Europe e Lita Ford), stoner metal (Clandemass), hardcore (D.O.A. e Bad Brains), thrash metal (Metallica e Sepultura), black metal(Venom e Mercyful Fate), black metal norueguês (Gorgoroth e Satyricon), grindcore (Repulsion e Brutal Truth), death metal (Cannibal Corpse e Deicide), death metal sueco (Arch Enemy e SoilWork), metalcore (Machine Head e Suicidal Tendencies ), grunge (Mudhoney e Melvins), metal gótico (Type O Negative e Therion), metal industrial (Marilyn Manson e Godflesh), hard alternative (Faith no More e Smashing Punpkins), nu metal (Slipknot e System of a Down), metal americano (Lamb of God e Chimaira)…UFA! 

O heavy metal venceu muitas batalhas, se consagrou como um dos estilos mais cultuados do mundo, tem festivais e fãs espalhados pelo mundo todo, mas até hoje não é visto com bons olhos por boa parte da população, o por quê, Sam Dunn responde: “ É que o metal confronta o que preferimos ignorar, celebra o que muitas vezes renegamos, e é indulgente com aquilo que mais tememos. E é por isso que o metal sempre será uma cultura de marginalizados […] Se o metal não te provoca essa envolvente sensação de poder, e não faz com que se arrepiem os cabelos da nuca, talvez nunca compreenda. E sabe o que mais? Tá tudo ok. Porque a julgar pelos 40.000 metalheads que me rodeiam [ele participava do Festival de Wacken Open Air, na Alemanha, considerado a meca da cultura do heavy metal] estamos bastante bem sem você”.

Amém!


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